Ciclo realizadores italianos: Paolo Sorrentino

Filme 'La Grazia' de Paolo Sorrentino

Em ‘La Grazia’ (2026), Paolo Sorrentino ensina-nos a beleza da dúvida

Os filmes de Paolo Sorrentino provocam em mim um sentimento raro e, devo confessar, chato. O de saber que gostei de uma coisa, mas não conseguir explicar porquê. É uma sensação que dá jeito, por exemplo, aos cantores românticos (o Tony Carreira há de ter algum verso sobre isso), mas que é muito incomodativa para quem quer escrever sobre um filme.

Com que autoridade posso eu sugerir uma coisa se nem sei explicar o que tem de bom?

‘Youth’ (2015) é um dos meus filmes preferidos. ‘È Stata la Mano de Dio’ (2021) também. No entanto, não há considerações ou sequer adjetivos que consiga proferir sobre eles a não ser “são mesmo lindos, pah”. Ou, como resumi na única vez que me atrevi a escrever sobre um filme dele: “Mostra-nos o lado da vida que nos apaixona, mas também o que é sombrio, feio e cheira mal. Todos somos um bocadinho daquela gente. São uma verdadeira carta de amor, porque o amor nem sempre é bonito”.

Depois de um ‘Parthenope’ (2024) que dividiu opiniões, o realizador napolitano voltou este ano com ‘La Grazia’. Lá fui eu ver mal consegui e lá saí eu com a sensação do costume. Sinal de que voltei a adorar. Desta vez, contudo, não fiquei incomodado com a minha falta de palavras. Pura e simplesmente porque o homem fez o enorme favor de me ensinar que a verdadeira beleza (do filme, da arte, da vida) está precisamente na dúvida.

Filme em destaque: ‘La Grazia’ de Paolo Sorrentino (2026)

2h13 Itália Drama, Refletivo | Nos Cinemas

Toni Servillo é o Presidente da República italiana em ‘La Grazia’ (2026)

Toni Servillo (na sétima vez a trabalhar com Sorrentino) é o Presidente da República italiana. Restam-lhe seis meses de um mandato marcado por diversas crises políticas, com as quais lidou munido de um tom de sobriedade e clareza que a carreira como jurista lhe conferiu. É um homem seguro, reservado e com pouca apetência para o risco. O mandato foi seguro, mas contido e dificilmente ficará para a história.

O que poderia ser uma saída discreta, como desejava, torna-se um percurso melindroso. Por conta de três decisões por tomar que põem os seus princípios à prova (uma das quais capaz de lhe custar a reputação aos olhos de meio país, qualquer que seja a opção escolhida) e de um passado que o atormenta. Está, além disso, a ficar velho, a sentir que o prazo de validade está a expirar. Quem em breve deixará de ter utilidade aos olhos da sociedade. A velhice do Presidente português, varrido pelo vento numa das cenas mais peculiares do filme, enche-o de medo.

Sorrentino inunda-nos com perguntas e indecisões e, no final, serve-nos todas as respostas quase de rajada. Porque, na verdade, o filme nunca foi sobre as decisões tomadas pelo Presidente. É sobre as hesitações que sentiu ao tomá-las e as dúvidas que continua a ter mesmo depois de tomadas, ratificadas e até após o término do mandato.

É igualmente sobre as dúvidas da pessoa que veste a ‘farda’ perante as relações com a família, com amigos, com a equipa que trabalha para ele e com amores do passado e do presente. As mesmas que tanto atormentam o Presidente nas opulentas salas de um palácio, como o insuspeito cidadão que passa pelo lado de fora.

A dúvida acompanha-nos toda a vida. Sobre o presente, sobre o passado e sobre o futuro. Sobre coisas importantes e coisas mundanas. Até sobre o que não conseguimos compreender. Chega a ser angustiante, mas isto de existir, de se ser humano, é ter dúvidas. Decidir, apesar delas, chama-se ter coragem.

“La grazia è la bellezza del dubbio”, conclui Servillo numa das últimas frases do filme.

Obrigado Sorrentino, por nos fazeres duvidar.

A Festa do Cinema Italiano chega ao CC Porto de 24 a 30 de abril. ‘La Grazia’ de Paolo Sorrentino estará em exibição dias 25 (21h) e 26 (16h). Reserva o teu lugar!

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