Acordar uma cidade com um lado autodestrutivo
O século XX caminhava a passos largos para a reta final. Finalmente livre das amarras da ditadura, Coimbra aprendia a respirar os ares da liberdade. O medo e a forçosa clandestinadade davam lugar a uma nova era. Uma era de roupas coloridas, sintetizadores e penteados extravagantes. A música mudava de tom. Não só no sentido figurado, mas também literal.
Sempre foi, sempre será, a cidade do fado e das tunas. Das ruas onde floresceram os poemas de Zeca Afonso, Manuel Alegre, Adriano Correia Oliveira. Mas há medida que os promissores 2000’s se aproximavam, crescia algo de novo. Lá por fora, o rock’n’roll estava num intenso e excitante processo de mutação. Nascia o Hip-Hop, crescia a música eletrónica. O Mundo aproximava-se. Tudo era misturável.
A música estava em revolução. Por cá, como era regra, tudo demorava mais chegar, mas era no centro do país, na cidade que nunca se conformou, que estava o epicentro nacional dessa transformação.
Enquanto o país era lentamente conquistado pelos videoclipes da MTV, Coimbra fervilhava com o rock, o punk e tudo o que fizesse vibrar uma geração que já não conhecera a ditadura na pele, mas que estava sedenta de liberdade. Os Tédio Boys arrastavam multidões em concertos mais ou menos improvisados. Os E.P.’S dos Belle Chase Hotel eram a novidade do momento.
Parte I: Uma cave no epicentro da música
Antes do regresso ao passado, o regresso ao futuro. Se há reportagens que demoram a arrancar, entre telefonemas perdidos e desencontros de agenda, esta não foi uma delas. Nem 15 minutos tinham passado desde de uma primeira chamada para (tentar) marcar entrevista e já estava eu num táxi a caminho da Quinta da Boavista.
Vejo-me na parte Sul da cidade, território que me é estranho. Uma zona habitacional, longe da azáfama da vida estudantil. Aqui não há vidas passageiras, nem o som das malas a romper pela velha calçada à segunda e à sexta. Há ‘coimbrinhas’, de gema ou adotados, a viver o dia o dia.
Entre as moradias, há uma casa que, à primeira vista, em nada se destaca das demais. Ninguém o diria, dado o aparente silêncio, mas é por lá que passa boa parte da música que hoje se faz em Coimbra. O legado da geração que agitou a cidade, o país e, se calhar, o Mundo, vive aqui.
“Isto está um bocado confuso, porque estamos aqui com umas obras”, começa por justificar Ricardo Jerónimo mal me recebe ao portão. (Comparado com o que costumo ver nas ruelas da Sé Velha, parece-me um museu). É membro dos Birds Are Indie e um dos responsáveis pela editora Blue House¹ .
O espaço é pequeno, mas concorrido. A Blue House abriu portas em 2014 e faz tudo o que se pode imaginar em termos de música. Entrando pela porta principal vemos o estúdio, à direita e ainda em obras, uma sala de ensaios, à esquerda, e, ao fundo do corredor, um pequeno escritório onde é tratada a parte de agenciamento das bandas.
É para lá que Ricardo me encaminha.
Sou apresentado a duas outras pessoas. Jorri (dos A Jigsaw) e Bernardo Franco (dos Flying Cages). Apresento-me com descontração, mas, por dentro, só penso que me saiu a sorte grande. Aquilo que, há menos de uma hora, seria uma entrevista via telefone, acabava se tornar numa conversa com representantes de três das bandas que estão a pôr Coimbra de novo no mapa da música nacional. Projetos diferentes que convergem num ponto comum. “O fundamental aqui é gostar de música e querer fazer música”, introduz Ricardo.
Parte II: Três bandas a (re)por o rock no mapa
Dos três, apenas Jorri não cresceu em Coimbra: “Sou daqui, mas cresci em Alcobaça. Só voltei quando vim estudar”. A paixão pela música começou, portanto, um pouco mais a sul. “Naquela altura havia lá uma sala muito concorrida. A malta via um concerto no sábado e na segunda queria formar uma banda”, explica sobre a origem da banda de garagem onde tocou u os primeiros acordes.
O regresso a Coimbra fez ruir os projetos da adolescência, mas abriu outras portas. Os A JIGSAW, banda que mistura a veia dos blues com influência folk, procuravam um baixista. Para sua felicidade, Jorri tocava baixo. Foi assim, da forma mais elementar possível, que, algures em 1999, o músico se juntou a João Rui e Susana Ribeiro. Uma história que caminha para os 20 anos.
O princípio do percurso de Bernardo, ‘coimbrinha’ de toda a vida, não é muito diferente. “Os Flying Cages nasceram no liceu. Começámos por tocar uns covers de The Strokes e Arctic Monkeys e fomos avançando para as nossas próprias músicas”, conta o mais jovem (excluindo-me a mim) da sala. Da secundária José Falcão, ali por 2011, até aos palcos nacionais foi um saltinho³.
Este ano [em 2019], já levaram o seu enérgico indie rock por salas emblemáticas como o Salão Brasil (Coimbra) ou o Hard Club (Porto) e por festivais de norte a sul do país. No verão, vão passar por Paredes de Coura para o ‘Sobe à Vila’, warm-up para o festival principal que dá espaço a bandas portuguesas emergentes.
Bernardo cresceu noutra era, face aos dois parceiros de tarde nos estúdios da Blue House. Diferença que, sugere Ricardo Jerónimo, muda muita coisa. “Eu e o Jorri só conseguimos lançar os nossos primeiros álbuns perto dos 30’s, o Bernardo ainda mal tinha 20 anos. É a prova de que há coisas que estão melhor agora do que dantes”, constata. Cada vez é mais fácil lançar música de forma independente, noção que, ela própria, também mudou. Em 2019 ‘independente’ pode signficar um EP feito a partir de casa com recurso a pouco mais do que um portátil.
Esbateram-se fronteiras, burocracias e limitações financeiras. Estúdios como os da Blue House também servem como intermediário entre a profissionalização do processo e a abertura para tirar novas bandas como os Flying Cages da garagem.
O percurso dos Birds are Indie é um pouco distinto. Pela forma como começou e pela maneira como expõe um outro lado das diferenças a que Ricardo se refere. Tudo começou quando conheceu Joana Corker. Membros de uma geração que parecia não encontrar forma de viver no próprio país, descobriram conforto na música. “Fizemos uma canção, depois outra e acabámos por perceber que havia ali uma semente para construir qaulquer coisa.”
Essas primeiras faixas foram publicadas no MySpace e a coisa tornou-se séria quando perceberam que havia pessoas desconhecidas a ouvir e a gostar da música que faziam. Uma certa mística que começou, mas, paradoxalmente, se esbateu com o advento das redes sociais e do streaming. A música chega-nos de forma cada vez mais rápida, mas também impessoal. Muitas vezes nem sabemos quem estamos a ouvir: “Não gosto de dizer que ‘no meu tempo é que era bom’, não quero estar aqui a dizer isso, mas agora é diferente.”
Os Birds Are Indie são uma banda consolidada no panorama nacional [em 2019, ainda que afirmação se mantenha verdadeira em 2026], já com quatro álbuns editados [são agora sete] e concertos por todo o país.
Parte III: Da States às Químicas, do Papa à Sé Velha…
A comparação de Ricardo Jerónimo entre o advento dos Birds Are Indie e dos Flying Cages é a oportunidade ideal para puxar a fita atrás. Uns bons anos atrás. Aos ‘loucos’ anos 90, quando ele e Jorri ainda eram dois miúdos a conhecer o mundo. Regressemos, agora sim, ao passado.
Há hábitos e lugares que não mudam. A Praça da República continua a ser um dos lugares de reunião dos estudantes de Coimbra. Para quem, como eu, cá chegou há dois anos parece que tudo sempre foi como é agora. Os mesmos bares, os mesmos rituais, os mesmos ritmos e a mesma música. Rapidamente percebo que não é assim.
“A oferta hoje é mais fácil. A Praça está cheia de bares que têm um DJ a passar música. Vais lá beber uns copos e ouves o que estiver a passar”, aponta Ricardo, rematando com uma frase que me deixou a pensar: “Naquela altura [anos 90] ias sair à procura de música…”
“…a malta saía para ouvir determinada banda que ia atuar e acabava por se juntar com outra malta que também gostava daquele género de música. Acabava por ser mais fácil juntar pessoas com os mesmos interesses”, completa.
Espalhados pela cidade exisitam espaços dedicados à música e que se tornaram míticos. “Como não havia telemóveis nem nada, a Praça era o ponto de encontro. Toda a gente sabia que tinha de ir lá ter. A partir daí inciava-se todo um circuito de sítios com música ao vivo”, lembra Jorri. “Faziam com que muita gente, mesmo do secundário, se misturasse e… (risos) faltasse às aulas no dia seguinte”, acrescenta.
A discoteca States era “o sítio”. Uma referência do rock e do punk da cidade. Os Tédio Boys, de Paulo Furtado (aka The Legendary Tigerman) e Vítor Torpedo, são o exlibris. Nasceram em Coimbra, desafiaram perconceitos, rasgaram fronteiras e influenciaram vários punhados de bandas que ainda hoje suam salas pelo mundo fora. Na Queima das Fitas, dizem os rumores não necessariamente confirmados nesta reportagem, chegaram a apresentar-se com muita música e nenhuma roupa.
Os Wraygunn (com Paulo Furtado, Raquel Ralha e Selma Uamusse), os Belle Chase Hotel (de JP Simões), o projeto António Olaio & João Taborda ou os Bunnyranch são apenas alguns dos outros exemplos nascidos depois no viveiro que era Coimbra. Outros tantos esvaneceram tão rápido quanto surgiram, mas sempre deixando alguma marca para trás. Uma geração que estava determinada em romper com a tradição e decidida a fazer tudo o que pusesse em causa a solenidade das capas negras.
Na rotunda do Papa, onde hoje há um restaurante, o ‘Buraco Negro’ era outros dos pontos de paragem obrigatórios. Os jardins da AAC, o TAGV e espaços míticos da Sé Velha como o ‘Moelas’ e o ‘Aqui Há Rato’ também serviam de palco – uns mais, outros menos improvisados – a toda esta vontade de criar, mostrar e de ser diferente. Ou, talvez, de, finalmente, serem eles próprios. Livres.
A Cave das Químicas é outras das lendas que hoje apenas ecoa por alguns corredores. Recebeu noites que só os que lá estiveram conseguem descrever, muitas vezes com lapsos de memória e confusões consequentes do tempo e outros excessos. Os Xutos e Pontapés, dizem, terão dado por lá um dos seus primeiros concertos.
As festas académicas também tinham outro significado no que à música diz respeito. “A Latada e a Queima eram muito diferentes. Tens de ver que não havia grandes festivais em Portugal. Se querias ver Iggy Pop, The Stranglers, The Pogues etc. em Portugal tinha de ser na Queima. Vinha gente de todo o país para os ver. Para a malta de Coimbra era a primeira oportunidade de ver um grande concerto. As bandas de cá acabavam por fazer a abertura para esses nomes internacionais. Tudo isto alimentava o apetite, o pessoal sonhava chegar aquele patamar”, lembra Jorri.
Parte IV: O tal lado autodestrutivo
E agora? Com mais de 20 mil estudantes inscritos na Universidade de Coimbra seria de esperar que muitos mais projetos continuassem a surgir por entre as paredes da academia. Na realidade, têm sido poucas as bandas formadas por causa desse fator aparentemente agregador.
“Tens os Sean Riley and The Slowriders que se conheceram e juntaram cá… e não muito mais”, diz Jorri enquanto tenta, sem grande êxito, puxar pela meomória. “A verdade é que não há grandes espaços para a malta que vem de fora se juntar para criar e ensaiar. O pessoal daqui tem sempre uma garagem ou uma cave em casa dos pais, mas quem vem de fora e aluga um quarto não pode fazer isso. Faltava que a UC ou AAC proporcionassem esses espaços físicos”, lamenta, acreditando que a geração atual continua com vontade de ouvir e fazer música.
A Universidade continua a servir para juntar quem gosta de música, mas a partilha desse interesse comum parece cada vez mais difícil de encaixar. Por razões físicas, mas também por uma certa mudança de mentalidade face a um espírito mais colaborativo desses ‘anos dourados’ da música conimbricense.
“Tem havido uma tendência muito forte para criar pequenos nichos. Os do rock dão-se com os do rock, os do fado com os do fado, os do teatro com os do teatro, as tunas fecham-se em si. Por aí fora”, expõe Ricardo. “É uma espécie de lado autodestrutivo”, completa sobre uma cidade que poderia ser uma incubadora para dezenas de projetos, como têm sido Lisboa, Porto ou até Braga.
“Quando os Birds Are Indie começaram, senti que era difícil entrar num desses círculos. A Blue House tenta contrariar isso, temos pessoas diferentes de muitos géneros diferentes”, garante.
Jorri confirma, dando o exemplo dos A JIGSAW. “Fomos conhecendo outras bandas, vendo concertos, indo aos bares. Malta que fazia coisas diferentes daquele nicho a que estávamos habituados. Todos com a mentalidade ‘do it yourself’, ou seja, tocar e produzir as próprias músicas, marcar os próprios concertos”, recorda, salientando que a Blue House tem feito por reavivar esse espírito.
“É certo que a faculdade também mudou. Na minha altura sabia que ia ficar aqui pelo menos cinco anos, havia mais tempo para desenvolver projetos. Agora os cursos são de três e a malta tem de se focar mais. Mas num meio mais pequeno, como Coimbra, é mais fácil chegar às pessoas. Em vez de estar cada um para seu lado, porque não juntar tudo?”
Parte V: Um oásis chamado RUC
Dentro do meio académico continua a haver, porém, um elemento que acolhe, agrega e incentiva. A Rádio Universidade de Coimbra (RUC) continua a ser um ponto de reunião para aqueles que gostam de música. Os Sean Riley and The Slowriders, nascidos em 2006, conheceram-se nos estreitos corredores da rádio.
Jorri conta que também os A Jigsaw tiveram na RUC uma ajuda crucial. Uma espécie de segunda casa. “A primeira vez que passámos na rádio foi lá. A primeira vez que estivemos num disco foi através de um compilação da RUC. Mesmo sem trabalhar lá, passámos lá muito tempo, fomos conhecendo muita gente. O Fausto… o nosso primeiro EP teve um forte apoio do Nuno Ávila”, conta.

A relação dos estudantes, na qualidade de ouvintes, com a sua rádio também mudou. “Aquela coisa de esperar pela hora de um programa ou de ficar no carro até acabar uma música praticamente já não existe. Agora ouves o que queres sempre que quiseres. Na RUC sente-se ainda mais porque havia uma ligação mais forte”.
Mesmo assim, a RUC mantém-se no seu ‘107.5’. A divulgar novos horizontes e os produtos nacionais e a servir para que tantos estudantes se possam reunir e aprender sobre música. É um pequeno bastião dessa altura em que a música arrastava multidões.
“A RUC é sobretudo um veículo transmissor. São muito importantes, porque são um nicho alternativo de criação musical. Através da RUC conheces muitas pessoas ligadas à música”, remata Ricardo Jerónimo.
Parte VI: A Lucky Lux, na Baixa
Além da BlueHouse, há uma outra editora – mais antiga – que também tem vindo a lutar pelo despertar da cidade. Rui Ferreira foi um dos fundadores da Lux Records – ainda nos anos 90 – e a história da cena musical de Coimbra, confunda-se com a do ex-enfermeiro.
Se há uns anos o podíamos encontrar nos Hospitais da Universidade de Coimbra, hoje [2019] basta descer até à Baixa e procurar uma pequena loja de discos. Entrar na Lucky Lux5 é entrar num autêntico paraíso do vinil e nadar na música de Coimbra e do mundo. Desde Led Zeppelin a António Variações, até compilações de música africana. Por entre as estantes e mostradores que enchem o espaço, pode-se encontrar um pouco de tudo, com espaço especial para os discos da editora Lux Records.
Ao balcão está, como é hábito, Rui Ferreira. Desde o primeiro minuto ficou bem claro que não era o primeiro a querer saber a sua história.6
“Antes de mais é preciso gostar de música”, começa por dizer sem rodeios, acrescentando que desde pequeno se interessa por discos. Começou a passar música numa rádio pirata – a Rádio Nova de Coimbra. Quando entrou no curso de enfermagem, entrou também na RUC. Foi tesoureiro, diretor de programação e presidente, para além de ter o seu próprio programa.
A Lux surgiu de um desafio de António Cunha, que na altura queria começar um projeto direcionado para música mais alternativa. “O primeiro disco foi “10! Anos Sempre No Ar”, uma compilação para celebrar o décimo aniversário da RUC (1996)”, lembra. Em 1999 acabou por pegar sozinho na editora.
Terminado o curso, começou a trabalhar, sem nunca deixar a música. Durante muitos anos acumulou o emprego como enfermeiro com o trabalho na RUC e na Lux Records, tornando-se ainda agente de algumas bandas. Foi apenas em 2017 que decidiu abandonar a enfermagem e dedicar-se a cem por cento à música. Surgiu então a Lucky Lux, que dá uma “componente física” à editora.
Os Birds Are Indie sobem ao palco do CC Porto no dia 22 de maio, com primeira parte dos Flying Cages. Garante já o teu bilhete!
